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Iniciando a nova sessão de entrevista do site da Secretaria de Estado de Cultura (www.secult.pa.gov.br), temos o Maestro titular da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz (OSTP). Mateus Araújo, que está regendo a ópera La Boheme para o II Festival Internacional de Ópera da Amazônia, fala sobre o trabalho à frente da OSTP, as mudanças previstas na orquestra e sobre os preparativos que antecedem cada espetáculo.
Mateus Araújo, 37 anos, começou como violinista da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo (1990 a 2002), e da Orquestra Jazz Sinfônica de 1990 a 1999, quando foi eleito seu regente. Entre 1999 e 2000, dirigiu mais de 50 apresentações incluindo turnês, gravações e concertos no Memorial da América Latina, na Sala São Paulo e no Festival de Inverno de Campos do Jordão. Estudou regência orquestral com Eleazar de Carvalho e Henrique Gregori e foi bolsista de regência convidado do Festival de Aspen – American Academy of Conducting – em 2000 e 2001, estudando com David Zinman e Jorma Panula.
Em 2001 foi o regente vencedor do concurso Eleazar de Carvalho na Orquestra Sinfônica Nacional e no ano seguinte foi classificado para o concurso de regência mundial de Lorin Maazel atuando no Teatro Municipal de São Paulo frente à Orquestra Experimental de Repertório. Em 2003 e 2004 atuou como regente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, onde dirigiu uma programação com mais de 50 obras inéditas na cidade. Como regente convidado já esteve frente às orquestras sinfônicas Municipal de São Paulo, de Minas Gerais, do Paraná, de Brasília e Sinfônica Nacional, entre outras. Desde 2005 é o regente titular da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, dirigindo, pela primeira vez no Estado do Pará, montagens como a de Il Guarany e La Cenerentola do I Festival Internacional de Ópera da Amazônia, em 2007.
Como você se apaixonou pela música clássica e decidiu ser maestro?
Aos oito anos, quando comecei estudando piano, composição e harmonia, que são as matérias teóricas. Um pouco mais tarde, aos 11, comecei a estudar violino também e aos 18 eu entrei como violinista na Orquestra Municipal de São Paulo, que era a mais importante de lá. Nos 12 anos que estive na orquestra, toquei concertos sinfônicos toda semana e tive a oportunidade de tocar várias óperas, inclusive trechos de "La Bohéme" com algumas solistas famosas. Depois, já com 23 anos, quando eu comecei a escrever para orquestra, já tocava violino numa orquestra chamada Jazz Sinfônico do Estado de São Paulo. Em 1999 fui eleito regente dessa orquestra na qual fiquei por mais dois anos. Um dos primeiros espetáculos que eu fiz nessa orquestra foi o espetáculo "Trazendo Che no Coração", que foi montado e produzido aqui no Pará.
Quando saí da orquestra fui estudar nos EUA e em 2000 e 2001, estudei no Festival de Aspen com 20 outros regentes do mundo todo, mas eu era o único do Hemisfério Sul. Fui indicado pelos professores para reger o IV ato de "La Bohème" com o professor de ópera, Julius Rudell. Lembro que ao agradecer, os professores me disseram que sabiam que eu era um homem de teatro, este foi um dos maiores elogios que já recebi. Reger música sinfônica é diferente de ópera porque você tem que amadurecer a sua intenção dramática, dosar energia, o fraseado e as tensões pra conseguir um efeito dramático. Depois, voltando dos Estados Unidos, fui reger a orquestra de Ribeirão Preto onde existe o teatro Pedro II que é uma das glórias do ciclo do café no interior de São Paulo, na qual saí dois anos depois vim desenvolver um trabalho aqui.
Foi uma mudança de vida muito radical, mas tomei a decisão de vir trabalhar aqui porque eu conhecia o Theatro da Paz e sei da importância da história da musica nesse teatro e também o que já foi feito em termos de educação musical do Instituo Carlos Gomes. Tomei este desafio com grande responsabilidade porque conhecia o potencial do local.
Como foi o início de trabalho com a OSTP?
A orquestra tinha oito anos de criação, mas ainda não tinha desenvolvido um repertório substancial. Nunca tinha tocado, por exemplo, uma sinfônica de Mozart ou uma sinfonia de Hayden, que são os pilares, nem a abertura da ópera "Il Guarani". Em 2 anos de trabalho, nós apresentamos todas as sinfonias de Beethoven ao vivo. Nós definimos novas diretrizes de trabalho, sendo que esse foi o meu desafio. A primeira ópera que eu regi aqui também foi uma obra de Puccini: "Madame Butterfly", uma obra dificílima para a qual a orquestra não tinha muita base para tocar, porque não tinha tocado muitas obras do século XX. Nesta ópera é grande a quantidade de tarefas, devido a sutileza da orquestração, o que exige muito de cada instrumentista. Este ano, pra minha alegria, a orquestra está mais madura pra interpretar a ópera prima de Puccini que é "La Bohème".
Qual a história da ópera "La Bohème"?
A ópera "La Bohème" trata da vida real. Nas óperas do Romantismo havia princesas, reis e monarcas, elas tinham assuntos lendários ou românticos, mesmo as comédias. Não havia óperas que falassem só da classe operária e aí no final do século XIX, em 1890, surgiu essa nova tendência que era de valoriza o cotidiano, a vida real. Esse movimento se chama Verismo, que vem de verdade, ele traz os assuntos cotidianos. Então, eu diria que as óperas começaram a ficar muito mais individuais. Nas óperas românticas praticamente tinha um esquema de ter árias. Teve uma fase nesse período que se chamava bel canto, que a gente vai poder apreciar na ópera seguinte do festival que é "Don Pasquale", que é uma opera com todo este esquema que pertence a um tipo de arquitetura definido. "La Bohème" nem tem uma abertura, ela já te joga na ação. A orquestra mostra o caráter da primeira cena e ela começa.
Já a história fala de amigos que vivem na pobreza. Rodolfo, que é o tenor ou o personagem principal, Marcelo, o amigo dele, que é um pintor e uma espécie de líder do grupo. Os outros dois amigos que vão complementar a atmosfera são Sonart, que é um músico e Colline que é um filósofo. Eles dividem um apartamento pequeno, num bairro pobre de Paris. Esses jovens lutavam pra começar a vida e num determinado momento o herói da história, o Rodolfo, encontra uma vizinha nova que é a Mimi. Desde o começo ela já aparece frágil porque está doente, apresenta os primeiro sintomas de tuberculose. No I ato, o casal se reconhece e se apaixona. No II Ato, eles já estão saindo juntos e vão num café para viver a noite um pouco depois, no III Ato, a situação já piorou a saúde dela e eles já falam de separação, decidem se separar quando acabar o inverno porque ele percebe que para a situação dela nem o amor basta e a impotência dele diante da doença o leva a combinar o final do romance. Finalmente, no IV Ato, ela esta na beira da morte mesmo assim pede para visitar o Rodolfo e aí eles tem uma despedida final, junto desses quatro amigos ela acaba eternizando esse romance na cena final.
Esta é uma opera com características muito próprias, as árias não servem apenas para exibir a voz, não tem virtuosismo, nem grandes exibições vocais, mas o texto é feito pra ser falado pra ser contado na velocidade do cinema, na velocidade da vida real. Além disso, cada personagem tem o seu tema e o trabalho temático está presente na obra inteira. Foram quatro anos que o compositor se dedicou pra escrever esse projeto.
Como é, então, reger uma obra tão rica como essa?
É um grande privilégio porque é uma das óperas mais amadas de todos os tempos. Eu acho que todo dia ela é realizada em algum lugar do mundo. É realmente uma obra prima, porque é uma ópera que faz parte da história da humanidade, e o que me surpreende é como uma opera que é tão popular, seja ao mesmo tempo tão complexa e tão requintada. Eu acho que esse é um dos grandes trunfos de Puccini. Ele consegue escrever uma obra absolutamente coesa, moderníssima, ainda hoje, e mesmo assim com toda a sofisticação. Ela pode ser compreendida imediatamente, mesmo por pessoas que não tem afinidade com o repertório lírico. Todas elas se rendem pra beleza da partitura. Mexer com uma música dessas, com um compositor que escreve os mínimos detalhes, é um privilegio e uma responsabilidade muito grande.
Como é o trabalho que vem sendo feito com o elenco e com o diretor Bill Ferrera, já que vocês trabalharam junto na ópera"Gianni Schichi", no I Festival de Ópera do ano passado?
Uma coisa interessante desse trabalho em "La Bohème" é a sinergia. O elenco que foi escolhido é absolutamente ideal, todas as vozes são ideais pra todos os personagens. Uma curiosidade é que todos estamos fazendo pela primeira vez, mesmo a Adriane Queiroz, que é uma das melhores cantoras do mundo, está fazendo o papel primeira vez. O Rodolfo é um cantor abençoado que tem a voz perfeita do Atalla Ayan. que ainda tão jovem está tendo o privilegio de fazer esse papel pela primeira vez. A Luciana é extremamente boa e deve fazer bem os dois papéis, mas agora esta brilhante como a Muzeta. O coral também está fazendo pela vez. Só o Bill Ferrara está fazendo pela quinta vez. Ele é um diretor mais do que brilhante, é um diretor como poucos que eu imagino no mundo. Ele tem todo a dedicação e sabedoria pra colocar esse espetáculo de pé.
Qual a diferença em trabalhar com a orquestra durante o ano e durante o festival?
Os ensaios durante o período de ópera se intensificam. A ópera tem uma duração mais longa e com uma quantidade de detalhes muito maior. Em ópera a orquestra não toca sozinha, ela deve acompanhar os cantores, deve estar preparada pra entender a respiração dos cantores, que é uma coisa que não acontece no concerto sinfônico. Na ópera a orquestra deve se ouvir e ainda ouvir o canto, os músicos devem combinar o seu som com o canto para acompanhar o canto e realçar a cena através das indicações do compositor, nesse caso o compositor é tão detalhista que escreveu muitas tarefas. Uma outra dificuldade é que na ópera o pulso muda muito mais, às vezes uma cena não tem um andamento fixo, vamos dizer, por exemplo, que o cantor deve apagar uma vela e eu tenho que esperar o tempo que for preciso para este processo cênico para então fazer acontecer a música e os músicos tem que estar preparados pra isso, são detalhes como este que fazer esse tipo de espetáculo ter uma dificuldade muito maior.
Como foi a experiência de compor para uma orquestra de Nova York?
Durante este ano eu escrevi uma peça que se chama "Suíte Brasileira" que foi encomendada pra ser tocada no Carneggie Hall, a sala mais importante de Nova York e vários arranjos também para o pianista e maestro João Carlos Martins que é um dos meus parceiros e um artista eu admiro muito. Dessa parceria, culminou um dos resultados mais positivos que eu já tive, que foi ter uma peça inteira executada em Nova York e isso é muito importante porque é uma obra inédita de um compositor brasileiro e ainda que seja reconhecida pela critica nos dias seguintes, teve critica no New York Times, ela também fala da nossa sociedade o que também é uma grande honra pra mim.
Pretendo fazer a estréia dela em outubro no Theatro da Paz. É uma peça em 4 movimentos que termina com Carimbó, o que quer dizer que estou gostando de trabalhar aqui e pretendo aproveitar ao máximo a grande riqueza da musica popular local. No IV movimento da minha música peguei um tema do mestre Cardoso, que mora em Ourém, e essa é uma das idéias que tenho, de popularizar a música local para o paraense e mostrar como não tem fronteiras entre as músicas. Como disse Ferreira Goulart: "A arte existe porque a vida só não basta", então, na verdade, são maneiras de nós falarmos de nós mesmos com outros recursos pra imitar a arte que imita a vida. Eu botei o Carimbó no final porque eu quero fazer uma série com os muitos mestres que temos aqui. Mestres que fazem bois, pássaros, repentes e muito mais. Nós vamos mostrar que da célula popular pode nascer uma grande coisa uma coisa não sofisticada, mas uma coisa elaborada e trabalhada.
A OSTP tem recebido músicos convidados?
A OSTP ainda não recebe tantos maestros convidados quanto poderia, mas receberá porque, em geral uma orquestra tem que ter um maestro responsável pelo som, que é o regente titular, que deve ficar cerca de 60% do tempo trabalhando com a orquestra e os outros 40% deveria ser preenchido com convidados. Este intercâmbio vai acrescentar informações importantes aos músicos, pois traá novas maneiras de pensar repertórios. Na profissão de regente também deve existir este intercâmbio porque eu preciso me reciclar. Isso é importante para que a orquestra também possa respirar, senão todos vão ficar cansados de mim porque é normal o desgaste. Durante os dois primeiros anos eu fiquei direto com a OSTP para a orquestra chegar no nível em que se encontra hoje, eles são músicos talentosíssimos, mas a minha função seria orientar. Eu preciso fazer outros trabalhos que inclusive levem o nome da OSTP, para isso regi orquestras em São Paulo no ano passado na Orquestra do Teatro Nacional de Brasília, que é uma orquestra importantíssima além de atuar como compositor e arranjador.
A OSTP passa por um processo de mudanças, como aumento de salários e o aumento dos ensaios. Como você vê isso?
As mudanças ainda estão acontecendo. Na cidade existem muitos músicos talentosos estudando, mas o músico tem que ter um bom nível para estar preparado pra entrar na orquestra, isto é importante para que o músico possa crescer dentro da orquestra e também possa fazer a orquestra crescer. Em outros estados existem orquestras jovens onde os músicos podem ganhar experiência cedo antes de passar para uma profissional. Este governo está criando condições para que o ritmo dos ensaios seja mais intenso, agora devemos ensaiar 4 vezes por semana, mas deve aumentar, sobretudo para que os músicos ganhem experiência para exercer a profissão.
Quando haverá audição para novos músicos?
Está previsto para novembro. Com isso, está sendo pensado na estrutura que um músico deve ter para que possa devotar a vida para a profissão, como comprar seus próprios instrumentos, pesquisar, comprar livros, CDs, roupas, botar os filhos na escola, ter qualidade de vida. Com apenas 3h de ensaio eles precisam estar concentrados porque é um trabalho desgastante emocionalmente e fisicamente. Há um projeto a longo prazo para eles tenham carteira assinada
O salário também aumentou. Um melhor salário permite que haja dedicação e isso exige investimento, mesmo com faculdades gratuitas o músico não está isento da sua responsabilidade de se atualizar. Eu posso dizer que a OSTP se destaca na região Norte-Nordeste pelo talento e pela garra dos seus integrantes. Isto é importante e os resultados desses trabalhos vão nos levar para uma realidade melhor, ou seja, mais músicos competindo por uma vaga.. A orquestra não vai fazer com que o músico melhore de uma hora para outra, ele precisa progredir um bocado sozinho antes de se habilitar. É importante que a orquestra perceba que a vida cultural é um ciclo e que orquestra faça um trabalho brilhante, com um nível elevado, para ser referência e o patamar de onde estão os bons músicos e inspirar mais jovens a estudar. Agora elas têm uma orquestra que vai melhorando o nível e precisam estudar para integrar essa orquestra. São essas coisas que farão deste lugar uma referência nacional e internacional em música.
Essa é uma mudança crucial para qual o governo teve a coragem de agir, mas não é de uma hora para outra. Acho que além de tudo isso é muito importante que haja mais concertos e mais concertos didáticos para as escolas para que a orquestra possa fazer parte da sociedade. Estão programados seis concertos didáticos para o segundo semestre. A orquestra deve ser a verdadeira embaixadora dessa região porque uma orquestra forte significa uma Amazônia forte, com qualidade de vida e isso é sinal de progresso, de uma sociedade organizada. Vida cultural, qualidade de vida e progresso são coisas que andam juntas.
O que você faz no seu tempo livre?
Às vezes as pessoas não fazem idéia de como a composição leva tempo porque improvisar é uma coisa, mas compor exige triagem, reflexão, pensamento e muita força de vontade. No meu tempo livre estou estudando ou compondo. Minha principal atividade é escrever as encomendas e eventualmente estudar, principalmente piano, que eu toco constantemente para acompanhar músicos e cantores e também estudo regência para reger outras orquestras e levar o nome da nossa orquestra para outros lugares. |